Estão me chegando poemas em borboletas... Deixe-os voar

quinta-feira, 29 de julho de 2010

COMO UM CÃO QUE SONHA A NOITE SÓ

Quando recebi o convite para apresentar o novo livro do Dércio Braúna em seu lançamento, fui tomado pelos sentimentos de honra e prazer. Honra, pelo convite de apreciar tão boa obra. Prazer, em ler esses escritos e em ver o nascimento de uma trajetória desde seu início. Acontece que comecei a ler os escritos do Dércio antes de qualquer livro publicado. Os historiadores sonham com isso.
Outro prazer ainda me veio visitar: perceber a recepção de cada novo livro do Dércio nos meios literários. Recepção boa, sempre de admiração. Lenta, é verdade, devido às dificuldades de divulgação. Mas é sempre uma recepção positiva e que só faz crescer a cada dia.O novo livro de que falo é o Como um Cão que Sonha a Noite Só. Conjunto de contos onde o leitor ouve falar de um homem só com seu cão aos pé, de uma desgraçada mulher-a-dias, de um estudioso do horror, de um justo assassínio de um morto, de um fundidor de metais, de uma humanidade desaparacida, de uma história sobre outra igualmente findada: essas são algumas das histórias, dos protestos de quem conta e imagina essas vidas contra a finitude, contra o esquecimento do mundo. 
O livro inicia-se com a história intitulada Como um Cão que Sonha a Noite Só, que dá título à obra.  Este conto põe de forma crua um homem comum, comedido, bem quisto, que um dia se põe a chorar interminavelmente quando lê uma página de um livro que dá conta de mais um massacre cometido por mais um entre tantos exércitos do mundo. É só um exemplo de tudo o que se faz no restante do livro, que é senão denunciar as desgraças e a miséria cotidianas, sem usar de clichês ou panfletagens. 
Durante todo o livro os leitores verão que são temas, assuntos, e olhares de quem tem um apurado senso crítico para apresentar, além de um olhar clínico para captar, todas as realidades que nos rodeiam. As histórias começam quase sempre com este cotidiano comum. Mas o comum é, às vezes, absurdo, ridículo, cruel. Quase nunca o “cotidiano comum” é realmente banal. É isto o que Dércio Braúna nos mostra, porque sabe, em suas próprias palavras, que hoje “olha-se muito. [mas] Repara-se pouco.” 
Dentre os temas tratados nos vários contos, as guerras, os massacres militares, a violência são muito recorrentes. E, dentre eles, o tema da idéia de um “DEUS” talvez o seja até mais recorrente que os outros. Sempre que surge, vê-se a presença de uma ironia cética do autor sobre a ajuda deste para com os homens e mulheres sofridos. Deus, para o autor, serve para “repovoar nosso desespero com fiapos de sonhamentos”. 
Quem percorrer com calma esse roteiro de histórias perceberá ainda uma escrita peculiar, marcada por um estilo próprio. Tal estilo traz um português diferenciado, fruto em grande parte das influências que o Dércio sofreu de alguns vários escritores estrangeiros, mas de países que falam o português, fique dito, em Portugal e África. O resultado é uma escrita poética e minuciosamente esculpida. Escrita de quem domina não só o português, mas os vários portugueses falados pelo mundo.
É uma escrita de quem sabe que literatura é uma arte de tratar as palavras com carinho. Todas as palavras. Sejam elas duras ou afáveis. O Dércio se dá melhor em sua relação com as palavras duras, ásperas, fortes. E as trata tão bem que ler esse livro é sinônimo de se deliciar não só com o conteúdo das histórias, mas também com o modo como as tais foram delineadas pelo escritor.
Outro dia desses, um crítico literário de Fortaleza, o Nilton Maciel, recebeu este livro de presente de um amigo e escreveu sobre ele em seu site pessoal (niltomaciel.blog.uol.com.br). Entre outras coisas, ele disse: “Dércio Braúna sabe escrever, leu e aprendeu a escrever, tem imaginação, talento. E algo mais, que falta à maioria dos escritores brasileiros. […] Não é um escritor qualquer. É um novo bom escritor. E este COMO UM CÃO QUE SONHA A NOITE SÓ é obra de quem sabe onde pisa.”
Belas e precisas as palavras as do Nilton. Me resta apenas acrescentar que o Dércio ainda é mais do que um novo bom escritor, como bem disse o Nilton Maciel. É já uma realidade. Realidade que, sem dúvidas, nesse instante começa a ganhar ascensão.

sábado, 17 de julho de 2010

DÉRCIO BRAÚNA E A LIRA DOS GUMES

Certa vez estava eu em casa quando me chega pelos correios o livro Metal sem Húmus, do poeta Dércio Braúna. O li de uma sentada, como se diz. Em seguida, via correio eletrônico, enviei-lhe imediatamente minhas considerações. Vai abaixo trechos desta minha resposta, para que o leitor que se aventura neste blog fique a par das percepções e sensações que me trouxe a leitura do Metal sem Húmus, livro de um poeta quando jovem, mas que veio para ficar. Livro, aliás, eleito entre os 20 melhores no ano de 2008 pelo renomado site português "pnetliteratura". Abaixo vai as palavras que enviei ao dito poeta:

Meu amigo poeta, açougueiro sem câimbra nos braços, ou simplesmente esse nome vegetal dito Dércio Braúna… Após uma atenta e boa leitura de seu Metal sem Húmus quero de início dizer que o começo do livro, ou seja, a orelha, está muito bem escrita, todas as construções minuciosamente entalhadas. Nota-se um paciente trabalho de maturação e aprimoramento do texto. Se não fizeste isso, se não se deu a esse trabalho, então é porque já se tornou um mestre ou mais um imperador da literatura de língua portuguesa.
Através da orelha você fala e se descreve como um “bicho milagrado homem”, um “desgraçado escrevente de coisas sentintes” que grita para nos falar da “inumania que vamos uns com os outros”. E é esse sujeito, agora descrito, que faz a pergunta: “a que nos serve a poesia nos tempos em que vamos?” A resposta é que, por obediência ao pragmatismo e à razão de serventia, diríamos que a poesia não nos serve mais para nada! Mas então você vai finalizar lembrando se, nesse momento, “não seria o caso de reencantar o mundo?” E para isso, aqui estaria a poesia, com “sumárias considerações sobre a contundente humanidade das coisas breves”.
A orelha fala realmente de forma correta sobre o que você escreve, e sobre o que é seu livro: em resumo, uma poesia que se ergue do chão, sob o sol, sem rosas ao caminho…
Todos os elogios à escrita da orelha valem para o texto intitulado Das Páginas Admiráveis Impossivelmente Condensadas no Poema, na abertura do livro, onde você defende que se o nascimento da poesia se deu como forma de suavização da ferocidade do homem, hoje é a “ferocidade de ânimo” que compõe o próprio corpo da poesia. É claro que está falando do que você mesmo escreve, do que acredita que deve ser a poesia.
O primeiro poema do livro é mesmo contundente! Nele, seu eu - poético é realmente algo de cortes de açougueiro. Eu, que muito sensível sou, fiz cara feia sentindo sua lâmina alisando meu espectro carnal. É verdade. Você conseguiu tudo o que queria. E aqui, cito trecho onde é possível ouvir e sentir a dor poética desses versos:
Açougueiro sem câimbra nos braços,
[…]
Eu faço versos como quem sangra vidas
Para o alimento doutro bicho,
Retalho carne como quem recita Pessoa,
Amolo minha lâmina como quem ensaia dizimentos e cantos
Ao som de coros de ambivalentes arcanjos.

Açougueiro lavado de hemócito perfume,
Eu me sento neste dia
Nas escadarias da Casa do Pai
E O como,
Engulo-O
Como quem fome tenha
E ao cabo da blasfêmia antropofágica
Mais fome tenha.

Obra de arte!
Seus poemas passam o sentimento duro sobre a "inumania" que você percebe e denuncia.
Mudando de um devaneio para outro, acho também que todo poeta tem um lugar que deseja alcançar com os versos que faz. E só às vezes se consegue. Quando o poeta o consegue, causa o efeito que tanto aspira no leitor. Você, quando não põe os pés nesse lugar, faz-me sentir comendo areia seca, uma aridez que eu não ultrapasso. Mas quando consegue… são realmente obras primas! Fique dito! Nesses momentos, vê-se o fato que, mesmo estando no início da caminhada, você já é um poeta maduro, como bem lhe disse um mestre e renomado poeta numa correspondência pessoal entre vocês que, por questões de ética, não posso fazer o favor de citá-lo.
Aliás, quem acompanhou o nascimento de seus livros percebe o grau de acabamento e refinamento que você foi trilhando e chega ao ápice agora, o que não quer dizer que não possa se superar ainda mais em outro.
O que você faz é uma poesia das coisas sujas. Mas a sujeira a que você se atém não é a dos sentimentos mesquinhos de, interiores. É o da mesquinharia que se vê de fora mesmo, no mundo no qual nos mantemos, na sociedade, nas relações humanas sol-após-sol… Esse mundo incerto, inseguro, injusto, o mundo do "in", de fato, inumado, ou da “inumania”, como você diz; esse mundo que necessita ser reencantado.
Vejo que você ainda não deixou Deus para lá. Ele, ou a idéia dele, lhe importa muito. Eu, em outra postura, já prefiro ignorar essa idéia. Então fico em dúvida: nós temos objetivos diferentes ou iguais neste ponto? Eu não sei… o fato é que Deus lhe atormenta, e a mim não. Entre as palavras-idéias que você adora pôr em debate estão "bicho”, “deus”, “metal”, “lira”, e o ser “o poeta…".
O título mais lindo que achei de seus poemas foi "Das Cartas de Amor Guardadas pelo Carrasco que Cultivava Sândalos e Sonhava Ver o Mar". É realmente demais! Versos como "E minha carne trêmula, mal contém, toda a precariedade de minha idéia"… são perfeitos.
Há ainda uma lista de poemas que destaco pela qualidade e beleza, mas que ao público é mais interessante que eu os mostre em versos, ao invés de somente citar os títulos. Usando de seus próprios versos, lhe digo:
Dércio Braúna, você assim se poetiza, se projeta no mundo, ao longo deste livro: “parte para o poema, não como o sacerdote que ao seu deus leva a consagrada oferenda. Você parte com o facão da lida, com a lâmina de talha, com seu corpo de fome e cio. Você parte para o poema a dentadas, com todos os seus caninos, imolares e incisivos, gosta de lhe ver a rasgaduras, o lanho, qualquer seiva, qualquer coisa que escorra, que diga ao predador que a presa está morta.”
Ora, “as moscas em sua mesa são as mesmas que engordam na pele decadente de velhas relíquias de guerra.” “O dia avança, e essas moscas marcham em exército sobre a mesa que você escreve seus poemas, que tratam de uma esquecida e longínqua feliz humanidade, de cães…”. Como um Incansável Verme, você “pensa na vida que lhe elabora, mas lhe dizem que não te ocupes com isso, que a vida é grande para tua pequena, mínima lira, que é, afinal, a “lira dos gumes”.
Amigo Dércio, não lhes dê sua pena. Prepare mesmo “um chão iluminado de manhã e pássaro para aquele que depois de você não virá”, pois quem sabe ele venha… eu mesmo posso vir… e posso assumir ser um bicho, para depois sonhar um deus. A não ser que você, antes, “principie um mundo com os restos de madeira desse deus, com os pedaços de sua poeira”, antes que ele ressuscite e, sendo um “açougueiro sem câimbra nos braços, com sua faca me espie”.
Não penso “viver numa casa, numa rua qualquer, de um país feliz com seus tristes”. As metafísicas elaboradas no meio da manhã, enquanto nuvens passam sobre minha cabeça, e um cão em paz sonha a meus pés”, devem entrar na ordem desses dias em que vamos, sempre uns com os outros… “as utopias estão mortas, é certo. Putrefatas, mais que certo”. Mas “vês aquelas crianças: contra a púrpura da tarde, sobre suas velhas bicicletas, não dirias que todo o futuro será fabuloso?”
Não quero viver num mundo onde “os homens não se vêem, não se olham, não se tocam senão por trinta dinheiros!
Por isso, Dércio Braúna, continue rasgando com sua “lira dos gumes” as infindáveis longitudes da humanidade. Parabéns por esse livro, e que muitos leitores lhe recebam com os ouvidos e olhos abertos.


domingo, 30 de maio de 2010

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO E A POLÍTICA

Em tempos de eleição, é interessante ler o que um escritor como Luiz Fernando Veríssimo tem a dizer sobre o assunto. Suscinto, perspicaz, e de uma inteligência irônica, Veríssimo deixa sempre algumas pérolas para todos aqueles que apreciam sua literatura e seu papel enquanto intelectual. A entrevista vai logo abaixo:

Do site Brasília Confidencial

Luiz Fernando Veríssimo: “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”
08/03/2010
 Por Ayrton Centeno
 Como Luis Fernando Veríssimo, 73 anos, arruma tempo para tanto trabalho não se sabe. O que se sabe é que são mais de 70 livros. E sem contar as antologias! Há de tudo: romances, novelas, quadrinhos, contos, crônicas, guias turísticos e até poesia. No final de 2009, chegou às livrarias Os Espiões, sua obra mais recente. No entanto, sua tarefa mais pesada não é essa, mas a de alimentar diariamente colunas nos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Autor de uma frase cáustica sobre a imprensa – “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data” – o saxofonista, cronista, romancista, quadrinista, contista e novelista fala aqui sobre mídia, governo Lula, sua situação entre os chamados formadores de opinião, decadência dos diários tradicionais, e-books, elites e eleições.
Brasília Confidencial – Hoje, no Brasil, a mídia enxerga um país totalmente diferente daquele que a maioria da população vê. Enquanto a grande imprensa, pessimista, trabalha sobre uma paleta de escândalos, a população, otimista, toca a sua vida de modo mais tranquilo. Que país o Sr. vê?
 Luís Fernando Veríssimo – A imprensa cumpre o seu papel fiscalizador, mas não há duvida que, com algumas exceções, antipatiza com o Lula e com o PT. Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase-unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular. O que vai se desgastar com isto é a idéia da grande imprensa como formadora de opinião.
BC – A grande imprensa enaltece a diversidade de opiniões, mas, curiosamente, os principais jornais do Brasil têm a mesma opinião sobre os mesmos assuntos. Este pensamento único não compromete uma pluralidade de opiniões que a mídia costuma defender quando não está olhando para si própria?
LFV – O irônico é que hoje existem menos alternativas à imprensa “oficial” do que existia nos tempos da censura. Mas as alternativas existem, e o tal pensamento único não é imposto, mas decorre de uma identificação dos grandes grupos jornalísticos do país com alguns princípios, como o da economia de mercado, o governo mínimo, etc.
BC – O senhor defende na sua coluna a reforma agrária e questiona a criminalização dos movimentos sociais. Não se sente muito solitário na mídia tratando desses temas?
LFV – Meus palpites não são muito consequentes. Acho que me toleram como a um parente excêntrico.
BC– Todas as pesquisas indicam a queda da circulação dos grandes diários dentro e fora do Brasil. Com uma longa trajetória no jornalismo, como percebe esta queda persistente, que expressa também o afastamento de uma geração do hábito de ler jornais? E como acompanha o trânsito de boa parte do público para a internet?
LFV – Quem é viciado em jornal e revista como eu só pode lamentar que a era da letrinha impressa esteja chegando ao fim, como anunciam. Mas este é um preconceito como qualquer outro. Mesmo mudando o veículo ainda existirá o texto, e um autor. Vou começar a me preocupar quando o próprio computador começar a escrever.
BC – Atribui-se a um advogado famoso, dono de clientela de altíssimo poder aquisitivo, uma reação irada ao saber que seu cliente endinheirado fora preso: “O que é isso? No Brasil só vão presos os três Ps: preto, puta e pobre!”, reagiu indignado. Estamos no século 21, mas as elites parecem continuar no 19. Acredita que vá ver isto mudar?
LFV – As nossas elites não mudaram muito desde D. João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.
BC – A atual política externa do Brasil, mais independente, colabora de alguma maneira para mudar este comportamento?
LFV – A política externa independente é uma das coisas positivas deste governo. Embora o pragmatismo excessivo possa levar a uma tolerância desnecessária com bandidos, às vezes.
BC – O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que a única notícia realmente nova em toda a sua vida foi a chegada do homem à Lua. O resto já tinha acontecido antes de uma ou outra forma. O que o surpreendeu, além disso? Borges tinha razão?
LFV – O sistema GPS. Finalmente, uma voz vinda do alto para guiar os nossos passos.
BC – Em que trabalha no momento ou pretende trabalhar? De outra parte, o que acha dos e-books?
LFV – Acabei de lançar um romance, chamado Os Espiões. Não tenho outro romance planejado no momento. Devem sair um livro para público juvenil, um de quadrinhos e um sobre futebol este ano, mas não sei bem quando. Quanto aos e-books, só vou aceitar quando tiverem cheiro de livro.
BC – Teremos eleições em 2010 e o governo Lula opera na proposta de um pleito plebiscitário – Nós x Eles – contrapondo os oito anos do PT contra os oito anos do PSDB. Se fosse fazer esta comparação o que diria?
LFV – De certo modo, este governo continuou o outro. E vou votar para que o próximo continue este.

terça-feira, 4 de maio de 2010

PARA COMOVER BORBOLETAS

     Existem no Brasil muitos concursos literários. Há sites, inclusive, especializados em divulgá-los, como o www.concursosliterarios.com.br, www.gargantadaserpente.com ou o www.blocosonline.com.br.
     No ano passado, 2009, dei-me ao hábito participar de alguns concursos literários. Fiz minha inscrição em uns três ou quatro. Como esses concursos costumam demorar bastante para divulgar seus resultados, cheguei até a me esquecer que havia me inscrito. Minha surpresa foi quando, certo dia, já em 2010, os correios me entregam um envelope no qual tirei de dentro um certificado que me avisava ter sido eu premiado com Menção Honrosa no 3º CONCURSO NACIONAL DE POESIAS - PRÊMIO "FILOGÔNIO BARBOSA". Este concurso fora promovido pela prefeitura de Colatina, no Espírito Santo. Havia me inscrito com um único poema, dedicado ao poeta Manoel de Barros.
     Pouco tempo depois recebo outro aviso, este pelo endereço eletrônico, que me dizia ter sido eu premiado, também com menção honrosa, no 7º PRÊMIO NACIONAL DE POESIA - CIDADE IPATINGA. Todos os resultados deste concurso ainda estão, até o presente minuto, disponíveis neste site: http://www.clesi.com.br/concursos/concursos.html ou então neste: http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=46070.
     Neste concurso, do qual eu também já havia me esquecido completamente, enviava-se cinco poemas. Os meus foram sob o título PARA COMOVER BORBOLETAS, e neles estava também incluso aquele dedicado ao poeta Manoel de Barros.
     Bem, o melhor veio por último. Havia me inscrito no VI Edital de Incentivo às Artes no Ceará, para publicação de livro. Deste, amigos, eu não me esqueci. E, certo dia, recebi também o aviso de que tinha sido contemplado, e agora não se tratava mais de "menção honrosa" (ainda bem!). O resultado é que ainda este ano, 2010, será publicado pela editora 7Letras] meu segundo livro de poesia, intitulado PARA COMOVER BORBOLETAS. De início, enquanto o livro ainda não saiu da editora, disponibilizo abaixo três poemas, apenas para começarmos nossas conversas...


INCONGRUÊNCIAS SENSITIVAS



Aqui dentro não passa setembro
apesar de lá fora
dezembro já ter se esquecido de novembro.
Tenho essas sutilezas incongruentes nas sensações.
Procurei num livro de personalidade:
não me encontrei, elevado ao quadrado.
Sou mais explicado pela lentidão de um felino
que pela psicanálise de Sigmund Freud.

KELSON OLIVEIRA

AO POETA PANTANEIRO



Vem um homem sujo de barro e se árvore
se pedra, se lesma, se rã.
Transmuta-se em pequeninos grandes seres
às vezes desprezíveis, por outros desprezados.
Ele compõe-se de simplezas desmedidas
porque nasceu de uma inversão de ocasos
e se acalenta ouvindo a cor dos passarinhos.
Quando o fotografarem vai aparecer um lagarto
meio humano
uma palavra nua, abrindo o roupão.
Feito de degeneração lírica
foi o primeiro a me desorganizar muito bem
por forma um dia acabei eu também
fabricando meu coisário de nadeiras.
Desde então, nunca mais me quietei.
E se agora estou aqui lhe falando, poeta,
é que tornou-se minha distração…

KELSON OLIVEIRA


O DESEJO DA TARDE



Quando a tarde tira a roupa
a manhã retorna
antes que a noite se tenha rubricado.
Essa tarde de calor odeia tanto roupas
que ao sentir-se vermelha de arrebol
atira logo a saia fora, quando não a rasga.
Sem poder escurecer há alguns meses
a noite silenciosamente espia pela fechadura do tempo
as curvas nuas da tarde adolescente.

KELSON OLIVEIRA

AS MIL E UMA NOITES NO PAÍS DE MOSSORÓ - EPISÓDIO: A POÉTICA DO PAU-DE-ARARA

     Pau-de-arara é um nome que logo de cara, olhando de frente ou de perfil, não sugere muitas alegrias. Eu só conheci o que era sofrimento na minha vida quando passei a andar num exemplar disso (que chamam de transporte). Todo brasileiro deveria saber o que é um pau-de-arara, para não ficar se reclamando que anda de bicicleta, que pega ônibus coletivo lotado, que é atropelado antes de entrar no metrô, ou que seu carro velho ou novo não tem ar condicionado. Meus amigos, pau-de-arara a gente só quer uma vez. Mas, mesmo sem querer, eu tive de experimentar mais de mil.
     Para quem não sabe, e até o presidente Lula sabe, pau-de-arara é simplesmente um caminhão, de preferência velho, frouxo e feio, dirigido sempre por alguém amargurado, sovino e sem bom senso, e que tem um motor temperamental propício a se cansar e dar defeito no meio do caminho. Na carroceria deste caminhão colocam uma cobertura de lona e, para sentarmos, tábuas estreitas e duras como pedras (donos de pau-de-arara ainda não conhecem almofadas). São nessas tábuas que os seres humanos pagam penitência. Esses são os elementos básicos que compõem a poética do pau-de-arara.
     Pois bem, em todas as mil e uma vezes que fiz o dantesco trajeto Limoeiro-Mossoró tive de me submeter, abrindo mão da dignidade humana, a ir sentado num impropério desses. Porém, minha depressão era maior. Alguém certamente muito inteligente inventou de cruzar em laboratório um pau-de-arara macho com uma fêmea da espécie dos ônibus. O resultado foi uma engenhoca com uma cabine ampla (uma cabeça de ônibus com alguns ralos assentos) e o corpo de pau-de-arara. Para completar a façanha, o dono e motorista, há cinqüenta e cinco anos, auto-intitulou a si mesmo de Raimundinho do Mixto (assim mesmo, com “x”). E colocou em letras garrafais na dianteira do transporte, para ninguém esquecer.
     Nessa maravilha da engenharia a melhor parte, a parte da frente, onde os bancos não são de tábuas, e onde as portas laterais impedem que você tenha de lutar vinte e quatro horas contra o vento e a poeira, fica reservada para os barões do sertão. Eu, como todos os outros da ralé estudantil, tenho de me contentar com essa desigualdade social. Essa luta de classes nos transportes ilegais fica abafada no meu peito, porque ainda não me permitiram expressá-la no mundo da Academia, nem nos sindicatos. O resultado é que além de chegar a Mossoró em carne viva, os cabelos duros, os olhos minando sangue, e um cansaço que me faz quase implorar por um caixão, ainda chego com o sentimento abalado. Chego depressivo, precisando de gurus e horóscopos para melhorar o dia. Chego no limiar da condição humana, física e espiritual. Nesse estado deplorável, não me resta outra coisa senão ir ao cemitério e pedir, aos pés do túmulo do cangaceiro Jararaca, que um dia volte e faça lei com as próprias mãos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

QUANDO AS LETRAS TÊM A COR DO SONHO

     Em 2007 fizemos lançamentos do meu primeiro livro de poesis, Quando as Letras Têm a Cor do Sonho. Por aqueles dias, o jornalista Melquíades Jr., do Diário do Nordeste, escreveu matéria-resenha sobre o livro.

     Segue abaixo o texto do Melquíades, para quem quiser conferir:


Clipping - Fonte Jornal Diário do Nordeste – Caderno 3/ 3º Feira, 20 de Março – página 8 - 2007

ENCANTAMENTOS DE POETA GRANDE

Um menino viu que podia sonhar. Melhor ainda, que seus sonhos tinham, feito capítulos de um livro, continuação. Era possível sonhar cada dia um pedaço de devaneio onírico, de um poeta que nasceu do sonho, pensando ser o próprio Ali Babá numa caverna com quarenta ladrões, descobrindo gatos azuis e amarrando nuvens na janela de um ônibus. Da catarse onírica ao poético “fraseador”.

E o menino-grande/poeta se alimenta do sonho, da realidade sertaneja, da infância à beira do Rio Jaguaribe e do ‘nada’ - onde muitas vezes pode estar tudo – e com felicidade (sempre) e “simplesa” pinta com palavras uma poesia doce, enxuta, despretensiosa e até meta-poética, numa aquarela literária intitulada “Quando as letras têm a cor dos sonhos”, de Kelson Oliveira, publicando seu primeiro livro, contemplado pelo Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado.

“Sem felicidade não existiria esse livro”, afirma o jovem poeta sobre seu rebento, que, embora com simplicidade da escrita e um eu poético ameninado, não é para crianças. “É uma mensagem da criança para os adultos”. Mas diante do mundo inteiro, qualquer adulto é uma criança, daí a profundidade das reflexões “despretensiosas”: “Se o universo inteiro abrisse a boca /e dissesse com lentidão: ‘Eu estou com fome...’/O que ele iria comer/tendo em vista que carrega o fardo/ de ser tudo o que há?”.

Tendo provado da fonte de Manoel de Barros – que, menino, resolveu “desenhar o cheiro das árvores” e um mundo de coisinhas, Kelson escreve as coisas simples da vida, mas sublimes, umas “simplesas”, como escreveu, desde o início propondo uma outra arrumação das palavras e sentidos. Amor, sociedade, natureza, “tentei fugir dos temas consagrados”. Tentou, mas talvez tenha conseguido fugir da consagração dos temas, numa poesia que veio “de repente”, “sem maiores intenções”, como em “Momentos”: “Assim você me conquista/ Assado é para o almoço/ Há momentos que eu rio/ Você lagoa.”

O estudante de História (Fafidam-Uece) já é doutor em estórias, conseqüência do modus vivendi - calçadas de interior, terreiro de jogar bola, soltar pipa, apreciador do Rio Jaguaribe, colecionador de tampinhas de refrigerante. “Quando as letras têm a cor do sonho”, é inteligente, encantador. O leitor mais sensível irá lembrar de quando quis ser Peter Pan na Terra do Nunca, ou o pequeno príncipe: “Comprei uma corda grosa/ Amarrei num poste/A outra ponta vou amarrar na parede/do espaço Sideral/Assim, eu paro a rotação dessa bola azul/ e namoro um pouco mais esse momento”.

Melquíades Júnior

AS MIL E UMA NOITES NO PAÍS DE MOSSORÓ - O MANIFESTO

Um blog serve para muitas coisas, eu imagino. Deve servir também para contar as aventuras e desventuras que a gente passa nesses corridos dias. Eu, como todo ser humano, passo algumas. Dentre elas, está a incrível travessia que fiz, heroicamente, mais de mil vezes, entre a cidade de Limoeiro do Norte-CE, situada na aquosa região do Vale do Jaguaribe, e a terra escaldante que é o País de Mossoró.
Sei que já devem estar pensando que sou daqueles que gostam de inventar histórias impossíveis. Bem, assumo a pecha. Entretanto, declaro: é verdade que fiz várias vezes o trajeto dantesco Limoeiro-Mossoró, atravessando nuvens de agrotóxicos, resistindo às intempéries e aos imprevisíveis ânimos do pau-de-arara de Raimundinho do Mixto, e suportando os fantasmas dos cangaceiros que um dia, fugidos de Mossoró sob uma chuva de balas, fizeram o mesmo trajeto.
Cada uma das mil e uma noites que acordei e me lancei à poeira que a estrada me esperava deixou uma marca, um desafio, uma vitória, um desespero, um fato inusitado, uma história para contar. E, a partir de hoje, comprometo-me: narrarei, entre outros afazeres, uma por uma essas aventuras. Mostrarei as nuances dessas terras, as personagens com quem me encontrava, as desgraças inimagináveis que um estudante pode passar. Viajantes do mundo, uni-vos! E, logo após, ouçam o que lhes tenho a dizer.