Estão me chegando poemas em borboletas... Deixe-os voar

domingo, 30 de maio de 2010

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO E A POLÍTICA

Em tempos de eleição, é interessante ler o que um escritor como Luiz Fernando Veríssimo tem a dizer sobre o assunto. Suscinto, perspicaz, e de uma inteligência irônica, Veríssimo deixa sempre algumas pérolas para todos aqueles que apreciam sua literatura e seu papel enquanto intelectual. A entrevista vai logo abaixo:

Do site Brasília Confidencial

Luiz Fernando Veríssimo: “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”
08/03/2010
 Por Ayrton Centeno
 Como Luis Fernando Veríssimo, 73 anos, arruma tempo para tanto trabalho não se sabe. O que se sabe é que são mais de 70 livros. E sem contar as antologias! Há de tudo: romances, novelas, quadrinhos, contos, crônicas, guias turísticos e até poesia. No final de 2009, chegou às livrarias Os Espiões, sua obra mais recente. No entanto, sua tarefa mais pesada não é essa, mas a de alimentar diariamente colunas nos jornais O Globo, O Estado de S. Paulo e Zero Hora. Autor de uma frase cáustica sobre a imprensa – “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data” – o saxofonista, cronista, romancista, quadrinista, contista e novelista fala aqui sobre mídia, governo Lula, sua situação entre os chamados formadores de opinião, decadência dos diários tradicionais, e-books, elites e eleições.
Brasília Confidencial – Hoje, no Brasil, a mídia enxerga um país totalmente diferente daquele que a maioria da população vê. Enquanto a grande imprensa, pessimista, trabalha sobre uma paleta de escândalos, a população, otimista, toca a sua vida de modo mais tranquilo. Que país o Sr. vê?
 Luís Fernando Veríssimo – A imprensa cumpre o seu papel fiscalizador, mas não há duvida que, com algumas exceções, antipatiza com o Lula e com o PT. Acho que os historiadores do futuro terão dificuldade em entender o contraste entre essa quase-unânime reprovação do Lula pela grande imprensa e sua também descomunal aprovação popular. O que vai se desgastar com isto é a idéia da grande imprensa como formadora de opinião.
BC – A grande imprensa enaltece a diversidade de opiniões, mas, curiosamente, os principais jornais do Brasil têm a mesma opinião sobre os mesmos assuntos. Este pensamento único não compromete uma pluralidade de opiniões que a mídia costuma defender quando não está olhando para si própria?
LFV – O irônico é que hoje existem menos alternativas à imprensa “oficial” do que existia nos tempos da censura. Mas as alternativas existem, e o tal pensamento único não é imposto, mas decorre de uma identificação dos grandes grupos jornalísticos do país com alguns princípios, como o da economia de mercado, o governo mínimo, etc.
BC – O senhor defende na sua coluna a reforma agrária e questiona a criminalização dos movimentos sociais. Não se sente muito solitário na mídia tratando desses temas?
LFV – Meus palpites não são muito consequentes. Acho que me toleram como a um parente excêntrico.
BC– Todas as pesquisas indicam a queda da circulação dos grandes diários dentro e fora do Brasil. Com uma longa trajetória no jornalismo, como percebe esta queda persistente, que expressa também o afastamento de uma geração do hábito de ler jornais? E como acompanha o trânsito de boa parte do público para a internet?
LFV – Quem é viciado em jornal e revista como eu só pode lamentar que a era da letrinha impressa esteja chegando ao fim, como anunciam. Mas este é um preconceito como qualquer outro. Mesmo mudando o veículo ainda existirá o texto, e um autor. Vou começar a me preocupar quando o próprio computador começar a escrever.
BC – Atribui-se a um advogado famoso, dono de clientela de altíssimo poder aquisitivo, uma reação irada ao saber que seu cliente endinheirado fora preso: “O que é isso? No Brasil só vão presos os três Ps: preto, puta e pobre!”, reagiu indignado. Estamos no século 21, mas as elites parecem continuar no 19. Acredita que vá ver isto mudar?
LFV – As nossas elites não mudaram muito desde D. João VI. Vamos lhes dar mais um pouco de tempo.
BC – A atual política externa do Brasil, mais independente, colabora de alguma maneira para mudar este comportamento?
LFV – A política externa independente é uma das coisas positivas deste governo. Embora o pragmatismo excessivo possa levar a uma tolerância desnecessária com bandidos, às vezes.
BC – O escritor argentino Jorge Luís Borges dizia que a única notícia realmente nova em toda a sua vida foi a chegada do homem à Lua. O resto já tinha acontecido antes de uma ou outra forma. O que o surpreendeu, além disso? Borges tinha razão?
LFV – O sistema GPS. Finalmente, uma voz vinda do alto para guiar os nossos passos.
BC – Em que trabalha no momento ou pretende trabalhar? De outra parte, o que acha dos e-books?
LFV – Acabei de lançar um romance, chamado Os Espiões. Não tenho outro romance planejado no momento. Devem sair um livro para público juvenil, um de quadrinhos e um sobre futebol este ano, mas não sei bem quando. Quanto aos e-books, só vou aceitar quando tiverem cheiro de livro.
BC – Teremos eleições em 2010 e o governo Lula opera na proposta de um pleito plebiscitário – Nós x Eles – contrapondo os oito anos do PT contra os oito anos do PSDB. Se fosse fazer esta comparação o que diria?
LFV – De certo modo, este governo continuou o outro. E vou votar para que o próximo continue este.

terça-feira, 4 de maio de 2010

PARA COMOVER BORBOLETAS

     Existem no Brasil muitos concursos literários. Há sites, inclusive, especializados em divulgá-los, como o www.concursosliterarios.com.br, www.gargantadaserpente.com ou o www.blocosonline.com.br.
     No ano passado, 2009, dei-me ao hábito participar de alguns concursos literários. Fiz minha inscrição em uns três ou quatro. Como esses concursos costumam demorar bastante para divulgar seus resultados, cheguei até a me esquecer que havia me inscrito. Minha surpresa foi quando, certo dia, já em 2010, os correios me entregam um envelope no qual tirei de dentro um certificado que me avisava ter sido eu premiado com Menção Honrosa no 3º CONCURSO NACIONAL DE POESIAS - PRÊMIO "FILOGÔNIO BARBOSA". Este concurso fora promovido pela prefeitura de Colatina, no Espírito Santo. Havia me inscrito com um único poema, dedicado ao poeta Manoel de Barros.
     Pouco tempo depois recebo outro aviso, este pelo endereço eletrônico, que me dizia ter sido eu premiado, também com menção honrosa, no 7º PRÊMIO NACIONAL DE POESIA - CIDADE IPATINGA. Todos os resultados deste concurso ainda estão, até o presente minuto, disponíveis neste site: http://www.clesi.com.br/concursos/concursos.html ou então neste: http://www.diariodoaco.com.br/noticias.aspx?cd=46070.
     Neste concurso, do qual eu também já havia me esquecido completamente, enviava-se cinco poemas. Os meus foram sob o título PARA COMOVER BORBOLETAS, e neles estava também incluso aquele dedicado ao poeta Manoel de Barros.
     Bem, o melhor veio por último. Havia me inscrito no VI Edital de Incentivo às Artes no Ceará, para publicação de livro. Deste, amigos, eu não me esqueci. E, certo dia, recebi também o aviso de que tinha sido contemplado, e agora não se tratava mais de "menção honrosa" (ainda bem!). O resultado é que ainda este ano, 2010, será publicado pela editora 7Letras] meu segundo livro de poesia, intitulado PARA COMOVER BORBOLETAS. De início, enquanto o livro ainda não saiu da editora, disponibilizo abaixo três poemas, apenas para começarmos nossas conversas...


INCONGRUÊNCIAS SENSITIVAS



Aqui dentro não passa setembro
apesar de lá fora
dezembro já ter se esquecido de novembro.
Tenho essas sutilezas incongruentes nas sensações.
Procurei num livro de personalidade:
não me encontrei, elevado ao quadrado.
Sou mais explicado pela lentidão de um felino
que pela psicanálise de Sigmund Freud.

KELSON OLIVEIRA

AO POETA PANTANEIRO



Vem um homem sujo de barro e se árvore
se pedra, se lesma, se rã.
Transmuta-se em pequeninos grandes seres
às vezes desprezíveis, por outros desprezados.
Ele compõe-se de simplezas desmedidas
porque nasceu de uma inversão de ocasos
e se acalenta ouvindo a cor dos passarinhos.
Quando o fotografarem vai aparecer um lagarto
meio humano
uma palavra nua, abrindo o roupão.
Feito de degeneração lírica
foi o primeiro a me desorganizar muito bem
por forma um dia acabei eu também
fabricando meu coisário de nadeiras.
Desde então, nunca mais me quietei.
E se agora estou aqui lhe falando, poeta,
é que tornou-se minha distração…

KELSON OLIVEIRA


O DESEJO DA TARDE



Quando a tarde tira a roupa
a manhã retorna
antes que a noite se tenha rubricado.
Essa tarde de calor odeia tanto roupas
que ao sentir-se vermelha de arrebol
atira logo a saia fora, quando não a rasga.
Sem poder escurecer há alguns meses
a noite silenciosamente espia pela fechadura do tempo
as curvas nuas da tarde adolescente.

KELSON OLIVEIRA

AS MIL E UMA NOITES NO PAÍS DE MOSSORÓ - EPISÓDIO: A POÉTICA DO PAU-DE-ARARA

     Pau-de-arara é um nome que logo de cara, olhando de frente ou de perfil, não sugere muitas alegrias. Eu só conheci o que era sofrimento na minha vida quando passei a andar num exemplar disso (que chamam de transporte). Todo brasileiro deveria saber o que é um pau-de-arara, para não ficar se reclamando que anda de bicicleta, que pega ônibus coletivo lotado, que é atropelado antes de entrar no metrô, ou que seu carro velho ou novo não tem ar condicionado. Meus amigos, pau-de-arara a gente só quer uma vez. Mas, mesmo sem querer, eu tive de experimentar mais de mil.
     Para quem não sabe, e até o presidente Lula sabe, pau-de-arara é simplesmente um caminhão, de preferência velho, frouxo e feio, dirigido sempre por alguém amargurado, sovino e sem bom senso, e que tem um motor temperamental propício a se cansar e dar defeito no meio do caminho. Na carroceria deste caminhão colocam uma cobertura de lona e, para sentarmos, tábuas estreitas e duras como pedras (donos de pau-de-arara ainda não conhecem almofadas). São nessas tábuas que os seres humanos pagam penitência. Esses são os elementos básicos que compõem a poética do pau-de-arara.
     Pois bem, em todas as mil e uma vezes que fiz o dantesco trajeto Limoeiro-Mossoró tive de me submeter, abrindo mão da dignidade humana, a ir sentado num impropério desses. Porém, minha depressão era maior. Alguém certamente muito inteligente inventou de cruzar em laboratório um pau-de-arara macho com uma fêmea da espécie dos ônibus. O resultado foi uma engenhoca com uma cabine ampla (uma cabeça de ônibus com alguns ralos assentos) e o corpo de pau-de-arara. Para completar a façanha, o dono e motorista, há cinqüenta e cinco anos, auto-intitulou a si mesmo de Raimundinho do Mixto (assim mesmo, com “x”). E colocou em letras garrafais na dianteira do transporte, para ninguém esquecer.
     Nessa maravilha da engenharia a melhor parte, a parte da frente, onde os bancos não são de tábuas, e onde as portas laterais impedem que você tenha de lutar vinte e quatro horas contra o vento e a poeira, fica reservada para os barões do sertão. Eu, como todos os outros da ralé estudantil, tenho de me contentar com essa desigualdade social. Essa luta de classes nos transportes ilegais fica abafada no meu peito, porque ainda não me permitiram expressá-la no mundo da Academia, nem nos sindicatos. O resultado é que além de chegar a Mossoró em carne viva, os cabelos duros, os olhos minando sangue, e um cansaço que me faz quase implorar por um caixão, ainda chego com o sentimento abalado. Chego depressivo, precisando de gurus e horóscopos para melhorar o dia. Chego no limiar da condição humana, física e espiritual. Nesse estado deplorável, não me resta outra coisa senão ir ao cemitério e pedir, aos pés do túmulo do cangaceiro Jararaca, que um dia volte e faça lei com as próprias mãos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

QUANDO AS LETRAS TÊM A COR DO SONHO

     Em 2007 fizemos lançamentos do meu primeiro livro de poesis, Quando as Letras Têm a Cor do Sonho. Por aqueles dias, o jornalista Melquíades Jr., do Diário do Nordeste, escreveu matéria-resenha sobre o livro.

     Segue abaixo o texto do Melquíades, para quem quiser conferir:


Clipping - Fonte Jornal Diário do Nordeste – Caderno 3/ 3º Feira, 20 de Março – página 8 - 2007

ENCANTAMENTOS DE POETA GRANDE

Um menino viu que podia sonhar. Melhor ainda, que seus sonhos tinham, feito capítulos de um livro, continuação. Era possível sonhar cada dia um pedaço de devaneio onírico, de um poeta que nasceu do sonho, pensando ser o próprio Ali Babá numa caverna com quarenta ladrões, descobrindo gatos azuis e amarrando nuvens na janela de um ônibus. Da catarse onírica ao poético “fraseador”.

E o menino-grande/poeta se alimenta do sonho, da realidade sertaneja, da infância à beira do Rio Jaguaribe e do ‘nada’ - onde muitas vezes pode estar tudo – e com felicidade (sempre) e “simplesa” pinta com palavras uma poesia doce, enxuta, despretensiosa e até meta-poética, numa aquarela literária intitulada “Quando as letras têm a cor dos sonhos”, de Kelson Oliveira, publicando seu primeiro livro, contemplado pelo Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura do Estado.

“Sem felicidade não existiria esse livro”, afirma o jovem poeta sobre seu rebento, que, embora com simplicidade da escrita e um eu poético ameninado, não é para crianças. “É uma mensagem da criança para os adultos”. Mas diante do mundo inteiro, qualquer adulto é uma criança, daí a profundidade das reflexões “despretensiosas”: “Se o universo inteiro abrisse a boca /e dissesse com lentidão: ‘Eu estou com fome...’/O que ele iria comer/tendo em vista que carrega o fardo/ de ser tudo o que há?”.

Tendo provado da fonte de Manoel de Barros – que, menino, resolveu “desenhar o cheiro das árvores” e um mundo de coisinhas, Kelson escreve as coisas simples da vida, mas sublimes, umas “simplesas”, como escreveu, desde o início propondo uma outra arrumação das palavras e sentidos. Amor, sociedade, natureza, “tentei fugir dos temas consagrados”. Tentou, mas talvez tenha conseguido fugir da consagração dos temas, numa poesia que veio “de repente”, “sem maiores intenções”, como em “Momentos”: “Assim você me conquista/ Assado é para o almoço/ Há momentos que eu rio/ Você lagoa.”

O estudante de História (Fafidam-Uece) já é doutor em estórias, conseqüência do modus vivendi - calçadas de interior, terreiro de jogar bola, soltar pipa, apreciador do Rio Jaguaribe, colecionador de tampinhas de refrigerante. “Quando as letras têm a cor do sonho”, é inteligente, encantador. O leitor mais sensível irá lembrar de quando quis ser Peter Pan na Terra do Nunca, ou o pequeno príncipe: “Comprei uma corda grosa/ Amarrei num poste/A outra ponta vou amarrar na parede/do espaço Sideral/Assim, eu paro a rotação dessa bola azul/ e namoro um pouco mais esse momento”.

Melquíades Júnior

AS MIL E UMA NOITES NO PAÍS DE MOSSORÓ - O MANIFESTO

Um blog serve para muitas coisas, eu imagino. Deve servir também para contar as aventuras e desventuras que a gente passa nesses corridos dias. Eu, como todo ser humano, passo algumas. Dentre elas, está a incrível travessia que fiz, heroicamente, mais de mil vezes, entre a cidade de Limoeiro do Norte-CE, situada na aquosa região do Vale do Jaguaribe, e a terra escaldante que é o País de Mossoró.
Sei que já devem estar pensando que sou daqueles que gostam de inventar histórias impossíveis. Bem, assumo a pecha. Entretanto, declaro: é verdade que fiz várias vezes o trajeto dantesco Limoeiro-Mossoró, atravessando nuvens de agrotóxicos, resistindo às intempéries e aos imprevisíveis ânimos do pau-de-arara de Raimundinho do Mixto, e suportando os fantasmas dos cangaceiros que um dia, fugidos de Mossoró sob uma chuva de balas, fizeram o mesmo trajeto.
Cada uma das mil e uma noites que acordei e me lancei à poeira que a estrada me esperava deixou uma marca, um desafio, uma vitória, um desespero, um fato inusitado, uma história para contar. E, a partir de hoje, comprometo-me: narrarei, entre outros afazeres, uma por uma essas aventuras. Mostrarei as nuances dessas terras, as personagens com quem me encontrava, as desgraças inimagináveis que um estudante pode passar. Viajantes do mundo, uni-vos! E, logo após, ouçam o que lhes tenho a dizer.