Pau-de-arara é um nome que logo de cara, olhando de frente ou de perfil, não sugere muitas alegrias. Eu só conheci o que era sofrimento na minha vida quando passei a andar num exemplar disso (que chamam de transporte). Todo brasileiro deveria saber o que é um pau-de-arara, para não ficar se reclamando que anda de bicicleta, que pega ônibus coletivo lotado, que é atropelado antes de entrar no metrô, ou que seu carro velho ou novo não tem ar condicionado. Meus amigos, pau-de-arara a gente só quer uma vez. Mas, mesmo sem querer, eu tive de experimentar mais de mil.
Para quem não sabe, e até o presidente Lula sabe, pau-de-arara é simplesmente um caminhão, de preferência velho, frouxo e feio, dirigido sempre por alguém amargurado, sovino e sem bom senso, e que tem um motor temperamental propício a se cansar e dar defeito no meio do caminho. Na carroceria deste caminhão colocam uma cobertura de lona e, para sentarmos, tábuas estreitas e duras como pedras (donos de pau-de-arara ainda não conhecem almofadas). São nessas tábuas que os seres humanos pagam penitência. Esses são os elementos básicos que compõem a poética do pau-de-arara.
Pois bem, em todas as mil e uma vezes que fiz o dantesco trajeto Limoeiro-Mossoró tive de me submeter, abrindo mão da dignidade humana, a ir sentado num impropério desses. Porém, minha depressão era maior. Alguém certamente muito inteligente inventou de cruzar em laboratório um pau-de-arara macho com uma fêmea da espécie dos ônibus. O resultado foi uma engenhoca com uma cabine ampla (uma cabeça de ônibus com alguns ralos assentos) e o corpo de pau-de-arara. Para completar a façanha, o dono e motorista, há cinqüenta e cinco anos, auto-intitulou a si mesmo de Raimundinho do Mixto (assim mesmo, com “x”). E colocou em letras garrafais na dianteira do transporte, para ninguém esquecer.
Nessa maravilha da engenharia a melhor parte, a parte da frente, onde os bancos não são de tábuas, e onde as portas laterais impedem que você tenha de lutar vinte e quatro horas contra o vento e a poeira, fica reservada para os barões do sertão. Eu, como todos os outros da ralé estudantil, tenho de me contentar com essa desigualdade social. Essa luta de classes nos transportes ilegais fica abafada no meu peito, porque ainda não me permitiram expressá-la no mundo da Academia, nem nos sindicatos. O resultado é que além de chegar a Mossoró em carne viva, os cabelos duros, os olhos minando sangue, e um cansaço que me faz quase implorar por um caixão, ainda chego com o sentimento abalado. Chego depressivo, precisando de gurus e horóscopos para melhorar o dia. Chego no limiar da condição humana, física e espiritual. Nesse estado deplorável, não me resta outra coisa senão ir ao cemitério e pedir, aos pés do túmulo do cangaceiro Jararaca, que um dia volte e faça lei com as próprias mãos.

Kelson, adorei a idéia. Vá em frente e escreva muitas poesia e belos textos. Abraço. Luiz Assunção.
ResponderExcluirValeu, professor, pelas palavras!
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