Certa vez estava eu em casa quando me chega pelos correios o livro Metal sem Húmus, do poeta Dércio Braúna. O li de uma sentada, como se diz. Em seguida, via correio eletrônico, enviei-lhe imediatamente minhas considerações. Vai abaixo trechos desta minha resposta, para que o leitor que se aventura neste blog fique a par das percepções e sensações que me trouxe a leitura do Metal sem Húmus, livro de um poeta quando jovem, mas que veio para ficar. Livro, aliás, eleito entre os 20 melhores no ano de 2008 pelo renomado site português "pnetliteratura". Abaixo vai as palavras que enviei ao dito poeta:
Meu amigo poeta, açougueiro sem câimbra nos braços, ou simplesmente esse nome vegetal dito Dércio Braúna… Após uma atenta e boa leitura de seu Metal sem Húmus quero de início dizer que o começo do livro, ou seja, a orelha, está muito bem escrita, todas as construções minuciosamente entalhadas. Nota-se um paciente trabalho de maturação e aprimoramento do texto. Se não fizeste isso, se não se deu a esse trabalho, então é porque já se tornou um mestre ou mais um imperador da literatura de língua portuguesa.
Através da orelha você fala e se descreve como um “bicho milagrado homem”, um “desgraçado escrevente de coisas sentintes” que grita para nos falar da “inumania que vamos uns com os outros”. E é esse sujeito, agora descrito, que faz a pergunta: “a que nos serve a poesia nos tempos em que vamos?” A resposta é que, por obediência ao pragmatismo e à razão de serventia, diríamos que a poesia não nos serve mais para nada! Mas então você vai finalizar lembrando se, nesse momento, “não seria o caso de reencantar o mundo?” E para isso, aqui estaria a poesia, com “sumárias considerações sobre a contundente humanidade das coisas breves”.
A orelha fala realmente de forma correta sobre o que você escreve, e sobre o que é seu livro: em resumo, uma poesia que se ergue do chão, sob o sol, sem rosas ao caminho…
Todos os elogios à escrita da orelha valem para o texto intitulado Das Páginas Admiráveis Impossivelmente Condensadas no Poema, na abertura do livro, onde você defende que se o nascimento da poesia se deu como forma de suavização da ferocidade do homem, hoje é a “ferocidade de ânimo” que compõe o próprio corpo da poesia. É claro que está falando do que você mesmo escreve, do que acredita que deve ser a poesia.
O primeiro poema do livro é mesmo contundente! Nele, seu eu - poético é realmente algo de cortes de açougueiro. Eu, que muito sensível sou, fiz cara feia sentindo sua lâmina alisando meu espectro carnal. É verdade. Você conseguiu tudo o que queria. E aqui, cito trecho onde é possível ouvir e sentir a dor poética desses versos:
Açougueiro sem câimbra nos braços,
[…]
Eu faço versos como quem sangra vidas
Para o alimento doutro bicho,
Retalho carne como quem recita Pessoa,
Amolo minha lâmina como quem ensaia dizimentos e cantos
Ao som de coros de ambivalentes arcanjos.
Açougueiro lavado de hemócito perfume,
Eu me sento neste dia
Nas escadarias da Casa do Pai
E O como,
Engulo-O
Como quem fome tenha
E ao cabo da blasfêmia antropofágica
Mais fome tenha.
Obra de arte!
Seus poemas passam o sentimento duro sobre a "inumania" que você percebe e denuncia.
Mudando de um devaneio para outro, acho também que todo poeta tem um lugar que deseja alcançar com os versos que faz. E só às vezes se consegue. Quando o poeta o consegue, causa o efeito que tanto aspira no leitor. Você, quando não põe os pés nesse lugar, faz-me sentir comendo areia seca, uma aridez que eu não ultrapasso. Mas quando consegue… são realmente obras primas! Fique dito! Nesses momentos, vê-se o fato que, mesmo estando no início da caminhada, você já é um poeta maduro, como bem lhe disse um mestre e renomado poeta numa correspondência pessoal entre vocês que, por questões de ética, não posso fazer o favor de citá-lo.
Aliás, quem acompanhou o nascimento de seus livros percebe o grau de acabamento e refinamento que você foi trilhando e chega ao ápice agora, o que não quer dizer que não possa se superar ainda mais em outro.
O que você faz é uma poesia das coisas sujas. Mas a sujeira a que você se atém não é a dos sentimentos mesquinhos de, interiores. É o da mesquinharia que se vê de fora mesmo, no mundo no qual nos mantemos, na sociedade, nas relações humanas sol-após-sol… Esse mundo incerto, inseguro, injusto, o mundo do "in", de fato, inumado, ou da “inumania”, como você diz; esse mundo que necessita ser reencantado.
Vejo que você ainda não deixou Deus para lá. Ele, ou a idéia dele, lhe importa muito. Eu, em outra postura, já prefiro ignorar essa idéia. Então fico em dúvida: nós temos objetivos diferentes ou iguais neste ponto? Eu não sei… o fato é que Deus lhe atormenta, e a mim não. Entre as palavras-idéias que você adora pôr em debate estão "bicho”, “deus”, “metal”, “lira”, e o ser “o poeta…".
O título mais lindo que achei de seus poemas foi "Das Cartas de Amor Guardadas pelo Carrasco que Cultivava Sândalos e Sonhava Ver o Mar". É realmente demais! Versos como "E minha carne trêmula, mal contém, toda a precariedade de minha idéia"… são perfeitos.
Há ainda uma lista de poemas que destaco pela qualidade e beleza, mas que ao público é mais interessante que eu os mostre em versos, ao invés de somente citar os títulos. Usando de seus próprios versos, lhe digo:
Dércio Braúna, você assim se poetiza, se projeta no mundo, ao longo deste livro: “parte para o poema, não como o sacerdote que ao seu deus leva a consagrada oferenda. Você parte com o facão da lida, com a lâmina de talha, com seu corpo de fome e cio. Você parte para o poema a dentadas, com todos os seus caninos, imolares e incisivos, gosta de lhe ver a rasgaduras, o lanho, qualquer seiva, qualquer coisa que escorra, que diga ao predador que a presa está morta.”
Ora, “as moscas em sua mesa são as mesmas que engordam na pele decadente de velhas relíquias de guerra.” “O dia avança, e essas moscas marcham em exército sobre a mesa que você escreve seus poemas, que tratam de uma esquecida e longínqua feliz humanidade, de cães…”. Como um Incansável Verme, você “pensa na vida que lhe elabora, mas lhe dizem que não te ocupes com isso, que a vida é grande para tua pequena, mínima lira, que é, afinal, a “lira dos gumes”.
Amigo Dércio, não lhes dê sua pena. Prepare mesmo “um chão iluminado de manhã e pássaro para aquele que depois de você não virá”, pois quem sabe ele venha… eu mesmo posso vir… e posso assumir ser um bicho, para depois sonhar um deus. A não ser que você, antes, “principie um mundo com os restos de madeira desse deus, com os pedaços de sua poeira”, antes que ele ressuscite e, sendo um “açougueiro sem câimbra nos braços, com sua faca me espie”.
Não penso “viver numa casa, numa rua qualquer, de um país feliz com seus tristes”. As metafísicas elaboradas no meio da manhã, enquanto nuvens passam sobre minha cabeça, e um cão em paz sonha a meus pés”, devem entrar na ordem desses dias em que vamos, sempre uns com os outros… “as utopias estão mortas, é certo. Putrefatas, mais que certo”. Mas “vês aquelas crianças: contra a púrpura da tarde, sobre suas velhas bicicletas, não dirias que todo o futuro será fabuloso?”
Não quero viver num mundo onde “os homens não se vêem, não se olham, não se tocam senão por trinta dinheiros!
Por isso, Dércio Braúna, continue rasgando com sua “lira dos gumes” as infindáveis longitudes da humanidade. Parabéns por esse livro, e que muitos leitores lhe recebam com os ouvidos e olhos abertos.

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